Pesquisa da UFMG investiga consequências da covid-19 em pacientes curados

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Depressão é um dos sintomas que persistem entre os recuperados da infecção
Depressão é um dos sintomas que persistem entre as pessoas que se recuperaram da infecçãofreepik.com

A batalha contra o novo coronavírus pode não estar completamente vencida após a alta hospitalar. Isso porque alguns sintomas tendem a persistir por meses e até anos, comprometendo a qualidade de vida dos “recuperados” da doença. É o que indica a literatura já existente sobre o assunto, fenômeno também observado em pesquisa realizada pela Faculdade de Medicina com pacientes internados no Hospital das Clínicas da UFMG.

Um primeiro grupo (35 pessoas) que vem sendo acompanhado pelos pesquisadores desde julho deste ano relatou, um mês após a alta, sentir dores e impactos no estado emocional com sintomas de ansiedade e depressão, além de fraqueza nos braços, fadiga e falta de ar. E ao menos um terço teve reduzida sua capacidade de realizar esforço físico. A expectativa é que até o fim da pesquisa, com duração prevista de um ano e meio, cerca de 400 pacientes sejam acompanhados.

Coordenadora do estudo, a professora Carolina Marinho, do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Medicina, explica que sintomas como dor e falta de ar podem estar relacionados especificamente com a covid-19. “A doença acomete o tecido pulmonar e lesiona o alvéolo, unidade responsável pela troca de oxigênio por gás carbônico”, explica a professora.

O pulmão possibilita a troca de oxigênio entre o ar externo e o sangue e também pode sofrer lesão na parte circulatória. Isso porque há formação de coágulos até na microcirculação pulmonar.

Em relação a outros sintomas, como a fraqueza muscular, essa correlação não é tão nítida. Assim, não é possível inferir se a sequela tem relação com a doença ou se é consequência da imobilidade durante o período de internação hospitalar, que costuma ser de pelo menos uma semana.

“Por um lado, o processo de inflamação aguda da covid-19 ativa uma resposta inflamatória, que pode produzir lesão direta em nervos periféricos e músculos, gerando fraqueza. Por outro lado, temos o descondicionamento físico provocado pela imobilidade”, explica a coordenadora da pesquisa, mencionando os dois possíveis fatores causadores da fraqueza muscular.

Sintomas por anos
Apesar de a pesquisa ainda estar no início, é possível projetar que algumas das sequelas da doença identificadas nesse primeiro grupo de pacientes persistam por até dois anos. Isso se a covid-19 seguir a mesma tendência da Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars), doença causada por agente da mesma família do coronavírus, identificada em 2002. “Estudos relataram que 30% dos pacientes com Sars tiveram problemas pulmonares por até dois anos”, exemplifica a especialista.

Após esse período, esses casos passam a ser considerados crônicos, uma vez que as sequelas tornam-se permanentes, o que também é uma possibilidade aventada para os casos de covid-19. A professora informa que pacientes que estiveram no CTI por outros motivos mantêm condições relacionadas à internação até cinco anos depois.

Análise
Para analisar possíveis sequelas da infecção, os participantes convidados (pessoas que receberam alta hospitalar) passam por exames, avaliação clínica e subjetiva a partir de um mês após a alta até um ano e meio depois.

A avaliação clínica, direcionada à parte respiratória, inclui testes para identificar a capacidade pulmonar e a força muscular periférica. Para a avaliação subjetiva, é aplicado questionário que analisa a qualidade de vida em cinco domínios: mobilidade, autocuidado, atividades usuais, domínio da dor e saúde mental (ansiedade e depressão).

O estudo prevê, ainda, a avaliação de imagem a partir do sexto mês de alta, para identificar alterações estruturais e morfológicas no pulmão daqueles que permaneceram com os sintomas.

Ansiedade e depressão
Até o momento, as percepções de dor, ansiedade e depressão foram as mais prevalentes entre os participantes que fizeram a avaliação subjetiva. A professora Carolina Marinho acredita que a saúde mental pode sofrer impactos devido ao isolamento do paciente durante a internação, quando ele fica privado de visitas familiares e, em alguns casos, sem contato por celular com os entes e amigos.

Além disso, antes mesmo da conclusão do diagnóstico, esses pacientes relatam sentir medo de se contaminar no ambiente do hospital. Quando a covid-19 é confirmada, as pessoas passam a temer a evolução da doença.

Pessoas que precisam recorrer ao CTI para usar ventilação mecânica não ficam conscientes durante todo o período de internação, o que pode resultar em lacunas de memória. “Essa falta do entendimento do que aconteceu naquele período é outro fator relacionado à internação que pode alterar a saúde mental”, afirma a professora.

Além dos pacientes que permaneceram internados, é possível que aqueles que tiveram a doença e se trataram em casa também apresentem sintomas persistentes. “O nosso estudo não avalia isso, mas há relatos nesse sentido, e provavelmente daqui a pouco teremos esse conhecimento por meio de outras pesquisas”, antevê Carolina Marinho.

Pesquisa recente publicada no Journal of the American Medical Association (Jama) analisou 143 pacientes na Itália. Desse universo, apenas 12,6% foram internados em UTI, mas 87,4% relataram persistência de pelo menos um sintoma, como fadiga e falta de ar, por mais de dois meses.

Com isso, pode ser ainda maior a quantidade de pacientes que vão precisar de assistência prolongada, pressionando ainda mais o Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo Carolina Marinho, ainda não se sabe a dimensão desse impacto. “Se eu estimar que 3% vão precisar de assistência crônica por doença pulmonar, imagine o que esse percentual representa em um universo de três milhões de pessoas que tiveram a doença”, exemplifica. No Brasil, o número de infectados pelo novo coronavírus já supera quatro milhões.

As estatísticas gerais da pandemia mostram que 80% dos infectados apresentam a forma leve da doença. Cerca de 20% dos casos são considerados graves e necessitam de internação – 5% vão para a terapia intensiva.

Karla Scarmigliat / Centro de Comunicação Social da Faculdade de Medicina