Museu Nacional anuncia descoberta de nova espécie de lagosta

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O Museu Nacional (MN) anunciou na quinta-feira (13/8) uma nova descoberta na Península Antártica. Trata-se de uma espécie de lagostim até então desconhecida, apesar de outras do mesmo gênero já terem sido identificadas no continente. A Hoploparia echinata provavelmente viveu no período Cretáceo, há cerca de 75 milhões de anos, em ambiente marinho raso e com fundo arenoso. A novidade foi publicada no periódico Polar Research.

Participaram do estudo pesquisadores do MN; do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens, vinculado à Universidade Regional do Cariri (Urca); da Universidade do Contestado (UnC); e da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) – todos integrantes do projeto Paleoantar. Os fósseis foram encontrados na ilha James Ross, em 2016, durante a 34ª Operação Antártica (Operantar).

Ao longo dos últimos quatro anos, os sedimentos receberam tratamento em laboratório e forneceram informações para que o animal pudesse ser reconstruído. Sob o contraste de luz ultravioleta, foi possível notar pinças espalmadas e amplas, que supostamente capturavam peixes e outros organismos. Os pesquisadores acreditam que, semelhante a outros lagostins, a Hoploparia echinata deveria cavar tocas e ser um predador de emboscadas.

Na fotografia do fóssil, setas apontam para detalhes das patas do animal | Imagem: Paleoantar (Museu Nacional/UFRJ)

“Possivelmente esse animal não vivia em grandes comunidades, até porque os lagostins normalmente são animais territorialistas. Eventualmente eles podem conviver com outros, como na época da reprodução ou quando se alimentam de carcaças disponíveis no fundo do oceano. São interpretações ecológicas a partir do material coletado, das suas formas morfológicas e do ambiente onde o material foi encontrado”, descreveu William Santana, pesquisador visitante da Urca.

A classificação do lagostim vem do latim echinatus, que significa “espinhoso” e é uma das principais características da espécie. Já a atribuição ao gênero ocorre pela ornamentação da carapaça, que possui um padrão de sulcos. “Apesar de não ter representantes atuais, os fósseis desse gênero de lagostim foram encontrados em camadas de diferentes partes do mundo, totalizando 67 espécies. Entretanto, no continente Antártico, eram conhecidas, até o momento, apenas três espécies, sendo essa uma nova”, explicou Allysson Pinheiro, diretor do Museu de Paleontologia Plácido Cidade Nuvens.

“A descoberta dessa nova espécie de Hoploparia certamente não será a única do grupo. Em 2018, os pesquisadores estiveram durante 50 dias em parte da ilha James Ross, onde foram coletados dezenas de fósseis de lagostas e outros crustáceos que estão em estudo. Certamente, em breve, teremos novidades sobre esse grupo de animais que viveram na Antártica durante o período Cretáceo”, acrescentou Alexander Kellner, paleontólogo e diretor do MN.

Pesquisa na Antártica não para e novas descobertas serão anunciadas em breve | Foto: Paleoantar (Museu Nacional/UFRJ)

Reconstruindo o fóssil

Após a descoberta, os fósseis passaram por triagem no MN e foram encaminhados aos pesquisadores parceiros. No Laboratório de Paleontologia da Urca, o pesquisador Álamo Saraiva retirou rochas que recobriam partes do material. “Foi um trabalho difícil, pelo fato de se tratar de um exemplar preservado em um calcarenito muito duro. Portanto, identificar as estruturas dobradas umas sobre as outras foi um trabalho de muita paciência”, comentou.

Ao voltar ao MN, a reconstrução artística ficou a cargo do paleoartista Maurílio Oliveira, que levou em consideração as características do animal e informações sobre seu habitat. “Reconstruir a Hoploparia foi um grande desafio artístico e científico, que exigiu o uso de várias técnicas, como desenho, pintura e escultura, além da observação cuidadosa do fóssil”, descreveu.

Esboço do lagostim, feito por Maurílio Oliveira | Imagem: Museu Nacional (MN/UFRJ)

O continente

A ilha James Ross, na época do fóssil, era diferente. Há aproximados 75 milhões de anos, a área estava coberta pelo mar, tinha variedade de fauna (tubarões, corais, répteis) e temperaturas mais elevadas do que as registradas atualmente. A grande “quebra” na porção sul do supercontinente Pangeia já havia acontecido, mas a distribuição dos continentes e as correntes marinhas eram outras.

Segundo o geólogo Luiz Carlos Weinschütz, do Centro Paleontológico da UnC, a geologia ajuda a “ler” os capítulos da história da Terra, permitindo compreender os acontecimentos de cada época. “Vale ressaltar que o conhecimento geológico da Antártica é muito recente: faz apenas 200 anos que o ser humano chegou ao continente e apenas 40 anos que brasileiros fazem pesquisas por lá. Por ser recoberta por 98% de gelo, sendo comuns as condições climáticas adversas, o acesso tem logística complicada e cara. Tudo isso dificulta o desenvolvimento de pesquisas em terras austrais. Muito já se fez, mas ainda temos muito para fazer”, afirmou Weinschütz.

O continente gelado | Foto: Paleoantar (Museu Nacional/UFRJ)

A Antártica é considerada a última fronteira do conhecimento científico e tem gerado um movimento crescente de visitas técnicas por parte de pesquisadores de todo o mundo. Apesar do enorme potencial para estudos, a dificuldade de acesso ao continente gelado ainda é um desafio. Entre as principais atividades de pesquisa no continente, está o estudo dos fósseis, das adaptações sofridas por esses organismos e das relações de parentesco entre as diferentes espécies que habitaram o planeta.

Parte da equipe de pesquisadores em campo | Foto: Paleoantar (Museu Nacional/UFRJ)Fonte: Universidade Federal do Rio de Janeiro