Estudo da UFF alerta para a importância do isolamento social durante a gestação

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Silhueta de uma mulher grávida, de perfil, de frente para uma janela. Foto em preto e branco.
Crédito da fotografia: Unsplash

A cada dia que passa, o isolamento social em função da pandemia parece ter menos adeptos no país. As calçadas cada vez mais cheias de gente, nas capitais e interiores dos Estados, sinalizam para a transformação da quarentena em um “novo normal”, situação em que as pessoas circulam com relativa liberdade pelas cidades mas tomando, pelo menos teoricamente, alguns cuidados preventivos.

Apesar dessa mudança de comportamento, continua em alta o índice de letalidade pelo novo coronavírus no Brasil, com uma média de mais de mil mortos por dia, de acordo com dados do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e o Ministério da Saúde. O novo cenário tem sido particularmente desafiador para as pessoas que pertencem aos grupos de risco e são mais suscetíveis ao desenvolvimento de quadros graves da infecção. Para elas, mesmo com o afrouxamento das medidas de isolamento, ainda não parece ser o melhor momento para sair de casa.

O Brasil vem buscando uma redução de mortalidade materna e a aquisição de respostas, vindas de pesquisas como a nossa, que esclareçam sobre doenças emergentes, é um fator importantíssimo para que possamos evitar desfechos desfavoráveis para todos”, Mariana Mesquita Machado Amiune, aluna em estágio probatório do curso de Pós-graduação em Ciências Médicas.

Esse é o caso, por exemplo, das mulheres grávidas. Estudo da UFF, coordenado pelo professor de Obstetrícia da Faculdade de Medicina, Renato Augusto Moreira de Sá, e com a participação de profissionais da saúde do HUAP, sinaliza que a conjuntura que se apresenta atualmente é mais alarmante do que se acreditava até o momento e que é preciso redobrar o cuidado com as gestantes.

De acordo com o coordenador, uma pesquisa publicada recentemente no International Journal of Gynecology and Obstetrics aponta que ocorreram 124 mortes maternas por COVID-19 no Brasil, o que representa 77% das mortes de grávidas em todo o mundo”. Além da suscetibilidade das gestantes à infecção por COVID-19, Renato destaca o fato de a doença também poder atingir os bebês.

“Soma-se a isso a possibilidade da transmissão vertical, como relatada em uma revisão sistemática em abril deste ano. De um total de 70 recém-nascidos de mães com infecção comprovada pelo novo coronavírus, 7,1% tiveram infecção precoce detectada no segundo dia de vida. Mais recentemente, outra publicação alertou para a possibilidade de mortes fetais em gestações com infecção por COVID-19”, enfatiza.

A equipe liderada pelo especialista busca entender melhor o comportamento do vírus por trás desses números alarmantes e pretende lançar em breve uma coleta de dados estruturada e prospectiva. A ideia é possibilitar a emergência de futuros projetos de pesquisa capazes de caracterizar de forma mais precisa os riscos associados à infecção por COVID-19 durante a gestação. Até o momento, segundo Renato, ainda existem poucas publicações científicas circulando sobre o tema.

Os familiares precisam se cuidar com o mesmo nível de atenção para não contaminá-las. De nada adiantaria a grávida ficar em isolamento social e ser contaminada por um parente que não está respeitando as orientações das autoridades sanitárias”, Renato Augusto Moreira de Sá, professor de Obstetrícia da Faculdade de Medicina.

Mariana Mesquita Machado Amiune, aluna em estágio probatório do curso de Pós-graduação em Ciências Médicas e uma das integrantes do projeto, é uma das encarregadas de coletar informações junto às gestantes. “Sou responsável por fazer contato com todas as pacientes grávidas que, em qualquer fase da gestação, apresentaram sintomas de COVID-19 e tiveram testes positivos, desde o início da pandemia até hoje. Fazemos perguntas sobre toda a gravidez e também sobre a história pregressa de cada uma delas”.

De acordo com Mariana, o conhecimento sobre a infecção por coronavírus durante a gestação ainda é muito limitado, não somente no Brasil, mas no mundo. “Precisamos de mais dados para sabermos o percentual de mulheres grávidas que foram infectadas e analisar se essa infecção pode ou não causar ou agravar problemas de saúde nas mães e nos bebês. O Brasil vem buscando uma redução de mortalidade materna e a aquisição de respostas, vindas de pesquisas como a nossa, que esclareçam sobre doenças emergentes, é um fator importantíssimo para que possamos evitar desfechos desfavoráveis para todos”, ressalta.

Diante desse quadro, portanto, a recomendação dos ginecologistas com relação às gestantes continua ser a de que permaneçam em casa. O coordenador do estudo complementa dizendo que “devido à escassez de evidências robustas, ainda não está claro se a infecção pelo novo coronavírus no primeiro ou no segundo trimestre aumenta os riscos de efeitos adversos maternos e fetais. Portanto, o recurso que temos até o momento é o isolamento social para elas”.

O professor destaca ainda o papel fundamental da família para a proteção da gestante. “Os familiares precisam se cuidar com o mesmo nível de atenção para não contaminá-las. De nada adiantaria a grávida ficar em isolamento social e ser contaminada por um parente que não está respeitando as orientações das autoridades sanitárias”.

Esse cuidado, de acordo com Renato, é ainda mais relevante nessa época do ano, em que aumenta a circulação de outros vírus, como o H1N1 e o Zika, com a diferença de que já se tem vacina para o primeiro e existem métodos bem desenvolvidos de combate ao mosquito transmissor da doença, no caso do Zika. “Sem vacinação ou outros recursos eficazes para combate ao COVID-19, somado ao grande desconhecimento sobre ele e os índices de mortalidade no país, no entanto, a conduta mais adequada ainda continua a ser a preventiva”, conclui o médico.

Fonte: Universidade Federal Fluminense