Estudo da UFSCar avalia percepção das pessoas sobre importância das abelhas

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Mamangava realiza a polinização das flores do maracujá (Foto: Pixabay)Mamangava realiza a polinização das flores do maracujá (Foto: Pixabay)

O que diferentes atores de uma mesma cadeia produtiva pensam a respeito da importância das abelhas? Esta foi a pergunta que norteou o estudo desenvolvido por Juliano Schiavo, mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Agricultura e Ambiente (PPGAA) do Centro de Ciências Agrárias (CCA) do Campus Araras da UFSCar, sob orientação de Roberta Cornélio Ferreira Nocelli, docente do Departamento de Ciências da Natureza, Matemática e Educação (DCNME-Ar) da Universidade, com a participação de Priscilla Loiola, doutora em Ecologia e Recursos Naturais pela UFSCar, e publicado recentemente na Revista Ciência, Tecnologia & Ambiente.

O trabalho foi desenvolvido durante a pesquisa de mestrado de Schiavo, intitulada “A importância das abelhas na visão de diferentes segmentos da cadeia produtiva do maracujá (Passifloracea sp)”, e avaliou as percepções de cinco segmentos da cadeia produtiva do maracujá, planta nativa do Brasil com cerca de 580 espécies. O maracujá apresenta flores grandes e hermafroditas (com sexo masculino e feminino), porém não se autopoliniza, sendo necessário receber o pólen de outra flor para a formação do fruto e das sementes. Naturalmente, quem faz a polinização das flores do maracujá são as abelhas de grande porte, chamadas de mamangavas. Sem essas abelhas, é necessário fazer a polinização manual, que demanda tempo e dinheiro.

Durante a pesquisa, foram entrevistadas 162 pessoas, de 30 cidades, entre vendedores de insumos agrícolas, agricultores, compradores primários e secundários e consumidores finais. “O estudo concluiu que existe diferença na percepção dos diferentes atores da cadeia produtiva do maracujá quanto à importância das abelhas. Quanto mais ligados à produção agrícola, como vendedores de insumos e agricultores, mais as pessoas sabem sobre polinização e polinizadores, além de reconhecerem as mamangavas como polinizadores naturais do maracujá. Já os grupos que são ligados à venda e ao consumo de produtos agrícolas apresentam menor conhecimento sobre polinização e conhecem poucas espécies de abelhas”, explica Schiavo.

O estudo também apontou que, embora os agricultores saibam da importância das mamangavas para a cultura do maracujá, eles desconhecem como aplicar práticas amigáveis para atrair esses insetos. “Eles entendem que, sem a mamangava, não há polinização natural, mas desconhecem como atrair e proteger essas abelhas. Inclusive, observamos que eles utilizam neonicotinoides, agrotóxicos não autorizados na cultura do maracujá, e que têm um efeito danoso sobre os polinizadores”, afirma o pesquisador.

De acordo com Nocelli, a pesquisa mostra a relevância de programas de divulgação que ressaltem a importância das abelhas. “Elas são responsáveis pela polinização de um terço das culturas utilizadas pelo homem como alimento. Existem vários dados que apontam para um colapso em nossos hábitos alimentares caso as abelhas desapareçam; será necessário nos adaptarmos a um novo cardápio e poderemos perder nutricionalmente, uma vez que a variedade de alimentos pode diminuir. Desta forma, preservar as abelhas é uma questão de sobrevivência para os seres humanos”, conclui a docente.

Para Loiola, foi interessante notar que o grau de escolaridade não influenciou o conhecimento dos sujeitos acerca deste importante serviço ecossistêmico. “Independente de quantos anos as pessoas estiveram na escola, o que realmente as aproxima da polinização e das abelhas é a familiaridade com o assunto, e não a educação formal. Isso indica que precisamos melhorar nossas estratégias de ensino, para que a escola também seja um fator que impacte na maior valorização dos serviços ecossistêmicos na sociedade”, defende a pesquisadora.

O trabalho intitulado “Frequent access to ecosystem services leads to increased understanding of pollination” e publicado na Revista Ciência, Tecnologia & Ambiente, vol. 9 é de autoria dos três pesquisadores e pode ser conferido no site da revista. Um infográfico sobre a pesquisa também está disponível aqui.