Pesquisadores da UEL estudam mecanismos para amenizar a sede de pacientes

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Agência UEL/Reinaldo C. Zanardi

Referência no país, iniciativa chama atenção de importantes centros de saúde

Estudos e pesquisas para entender e manejar a sede de pacientes em pré e pós-operatório (perioperatória). Esse é o objetivo do Grupo de Estudos e Pesquisa da Sede (GPS), coordenado pela professora Ligia Fahl Fonseca, do Departamento de Enfermagem do Centro de Ciências da Saúde (CCS), da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Tal objetivo levou à criação do picolé de gelo e a goma mentolada, tendo como principal função aliviar a sede do paciente.
As pesquisas surgiram após ser constatada a sede em queixas de pacientes tanto no período pré quanto pós-operatório. A duração do jejum total – que inclui restrição à água – antes e depois do procedimento, depende da cirurgia a ser realizada. A professora Ligia Fonseca diz que procurou estudos e não havia, em nível internacional, trabalhos que abordassem o tema. “A gente foi procurar estudos de prevalência de sede em pacientes cirúrgicos e não achava, nem em bancos de busca”.
E por que a área de enfermagem se interessou pelo assunto? Exatamente porque são esses profissionais que atuam no cuidado ao paciente. A sede, conforme pesquisadores do GPS, pode ser provocada em qualquer procedimento cirúrgico e a sua intensidade depende de vários fatores, como características pessoais do paciente, ansiedade, tempo de jejum e medicamentos como os opioides.
Conforme a professora Ligia Fonseca, estudos do grupo indicam que no pós-operatório 75% dos adultos apresentam queixa sobre a sede. Em crianças, esse número é de 86% e pacientes de cirurgia bariátrica, a queixa chega a 97%. O GPS foi criado em 2010 e, atualmente, tem a participação de 18 alunos de Iniciação Científica (IC), da residência de Enfermagem e do stricto sensu (mestrado e doutorado).
Picolé de gelo – O grupo de pesquisadores do Departamento de Enfermagem, ao entender o processo da sede em pacientes cirúrgicos, desenvolveu ações para minimizar o desconforto. O modelo de manejo da sede considera quatro pilares: a) identificação, b) mensuração, c) segurança e d) estratégias.
Entre essas ações, estão o picolé mentolado e o hidratante labial. Os testes foram realizados com sucesso, comprovando a sua eficácia. No entanto, os picolés são produzidos pelo próprio grupo, de forma artesanal, muitas vezes, bancando pessoalmente os custos para a sua produção. “A gente faz manualmente na sala de recuperação, um picolé de água. Se falta palito, a gente compra. A gente vai dar curso fora e muitos perguntam onde comprar, mas não existe o picolé [no mercado]”.
Por isso, a estudante do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, a mestranda Natiely Motta, desenvolve para a sua dissertação o processo de produção do picolé, que pode ser em larga escala. Para isso, ela pensa o produto, entre outros, levando em conta a fórmula, testes químicos, embalagem e normas da Anvisa, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Ao todo, a estudante deverá realizar 12 testes.

Professora do CCS, Ligia Fahl Fonseca, com os alunos Aline Garcia, Natiely Motta e Leonel Alves do Nascimento

Já a doutoranda Aline Korki Arrabal Garcia, para a sua tese, desenvolve o Protocolo de Sede para ser implantado no Centro de Queimados do Hospital Universitário (HU) da UEL. Aline Garcia recebeu o prêmio de 1º lugar, no 13º Congresso Brasileiro de Enfermagem em Centro Cirúrgico, Recuperação Anestésica e Centro de Material e Esterilização, em 2017, pelo trabalho que desenvolveu no seu mestrado. Trata-se de uma goma de mascar mentolada no manejo do desconforto da sede pré-operatória. “A goma de mascar é usada exclusivamente no pré-operatório. No pós, ela não é usada. Nessa etapa, são os picolés de gelo e mentolado”, diz Aline Garcia.
O GPS já abordou em vários estudos diferentes aspectos referentes à sede dos pacientes cirúrgicos, mas não existe o diagnóstico sistematizado dessa situação no Brasil nem em nível mundial. Os procedimentos de enfermagem são catalogados pela NANDA Internacional, entidade que classifica os diagnósticos da área.
A NANDA define o diagnóstico de enfermagem como “um julgamento clínico sobre a resposta humana às condições de saúde” do paciente. “Um diagnóstico de enfermagem fornece a base para a seleção de intervenções de enfermagem para alcançar resultados pelos quais o enfermeiro é responsável.”

 

Por isso, o doutorando Leonel Alves do Nascimento, do Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, desenvolve para a sua tese, um estudo teórico-conceitual para elaborar e validar o diagnóstico de sede por enfermeiros.
Esse estudo pode, depois de pronto, integrar a lista de diagnóstico de enfermagem listados pela NANDA Internacional. A expectativa é da professora Ligia Fonseca. “Se for aceito e pretendemos que seja aceito, todos os enfermeiros do mundo inteiro vão ter acesso e ter de olhar esse diagnóstico”.
Referência – No Brasil, os estudos da UEL sobre a sede já se tornaram referência. Em setembro do ano passado, durante o 14º Congresso Brasileiro de Enfermagem em Centro Cirúrgico, Recuperação Anestésica e Centro de Material e Esterilização, professores e estudantes da UEL ministraram três oficinas, que abordaram os avanços em relação ao manejo da sede perioperatória.
A professora Ligia Fonseca, que já fez apresentações da iniciativa em Boston, nos Estados Unidos, informa que vários hospitais do Brasil têm procurado a UEL para a implantação do manejo da sede em pacientes cirúrgicos. Neste ano, o GPS inicia negociações com o Hospital de Câncer de Barretos, no interior do estado de São Paulo.
O Grupo de Estudos e Pesquisa da Sede (GPS) contabiliza, desde 2010, a defesa de oito projetos de pesquisa em nível de mestrado (dissertação), dois de doutorado (tese); 13 em nível de especialização (monografia). Na graduação, são 14 trabalhos e conclusão de curso e 13 em iniciação científica.
O GPS realiza o Clube do Artigo semanalmente às quintas-feiras, das 12h às 13h30 horas no CCS. O objetivo é discutir artigos científicos que contribuam para o crescimento do grupo. Além disso, são realizadas reuniões mensais para discutir temas relativos a métodos de pesquisa, desenvolvimento de projetos, análise de resultados e desenvolvimento interpessoal. O site do GPS pode ser acessado  AQUI/CONFIRA.

 

Fonte: Universidade Estadual de Londrina