Projeto de professor da UEL mapeia o cooperativismo no Brasil

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Para o professor Luis Miguel, a maioria das cooperativas se acomodou ao capitalismo, sendo raras as inovações ou condutas de resistência diante da conjuntura de exclusão social, algo genuíno à sua origem histórica.

Para o professor Luis Miguel, a maioria das cooperativas se acomodou ao capitalismo, sendo raras as inovações ou condutas de resistência diante da conjuntura de exclusão social, algo genuíno à sua origem histórica.

Participação democrática, solidariedade, equidade e autonomia são alguns dos valores que norteiam a essência do cooperativismo, cuja finalidade é promover a união entre o desenvolvimento econômico e o desenvolvimento social. No entanto, grande parte das cooperativas passou a incorporar condutas de empresas capitalistas, o que leva ao distanciamento dos seus princípios e valores originais.

É justamente no sentido de entender as transformações do cooperativismo que foi criado o projeto de pesquisa “Mapeamento do Cooperativismo no Brasil: evolução, modelos e perspectivas”, coordenado pelo professor Luis Miguel Luzio dos Santos, do Departamento de Administração. Ele busca analisar a trajetória do movimento no país sob diferentes vertentes. “Os estudos acerca do tema colocam o cooperativismo como algo único. Nosso objetivo é justamente se contrapor a isso e entender seus diferentes modelos de atuação”, ressalta o professor.

Dentro do projeto de pesquisa, o cooperativismo é desmembrado em quatro modalidades – cooperativismo de cabresto, cooperativismo concêntrico, cooperativismo popular e cooperativismo solidário. Segundo o professor Luis Miguel, o cooperativismo concêntrico é o modelo que predomina no Brasil e no mundo. Este ocorre quando um grupo mantém domínio sobre os demais cooperados, havendo certa verticalização das relações. O cooperativismo de cabresto está relacionado à subcontratação de mão de obra, empregadores que estimulam a criação de cooperativas de trabalho pelos funcionários para não terem mais responsabilidades trabalhistas. Já os modelos de cooperativismo popular e solidário são os que mais seguem os fundamentos originais do cooperativismo. Ainda segundo ele, analisar o cooperativismo com suas distinções é essencial para a compreensão dos caminhos seguidos pelo movimento até hoje.

“Os estudos acerca do tema colocam o cooperativismo como algo único. Nosso objetivo é justamente se contrapor a isso e entender seus diferentes modelos de atuação”,  ressalta o professor

O professor também esclarece que mesmo num momento em que as cooperativas seguem modelos capitalistas, ainda se distinguem das empresas tradicionais por aderirem a princípios mais coletivistas e democráticos. De acordo com Luis Miguel, é possível notar, a partir de estudos anteriores, que vivemos um cooperativismo com fortes traços conservadores, em que a mão de obra assalariada é dominante e o seu tratamento difere pouco dos dados pelas empresas tradicionais. O fato é que a maioria das cooperativas se acomodou ao capitalismo, sendo raras as inovações ou condutas de resistência diante da conjuntura de exclusão social, algo genuíno à sua origem histórica.

O professor cita as cooperativas de reciclagem como um exemplo que visa resgatar as origens do cooperativismo. Elas se enquadram no modelo de economia solidária, pela forma de gestão que propõe a ser democrática e horizontal. Segundo ele, o início do cooperativismo, que se deu por uma necessidade, é muito parecido com a realidade dos catadores das cooperativas, que também buscam uma alternativa de trabalho e renda.

Instituir a cultura do cooperativismo no país é complexo, uma vez que o empreendedorismo individual ainda é muito forte e, ao mesmo tempo, interfere na busca por alternativas coletivas. Um dos caminhos apontados pelo professor Luis Miguel é o exemplo da Dinamarca, que há mais de 50 anos passou a instituir disciplinas ou conteúdos transversais de cooperativismo no currículo escolar das crianças. “Isso acaba instigando uma cultura diferente. No Brasil ainda existe um forte traço de competição entre as pessoas, de maneira que elas são enaltecidas e induzidas a empreender individualmente. Instituir conteúdos que norteiam a cooperação na educação é uma das sementes para que ocorra uma profunda mudança na sociedade”, opina.

Impacto econômico

O professor aponta que o cooperativismo pode gerar inúmeras vantagens, na medida em que promove a união entre pequenos produtores e pequenas empresas no sentido de traçar estratégias conjuntas, potencializando os resultados coletivos. Apesar do grande potencial, ele explica que o cooperativismo é uma área subutilizada na economia do país. Um dos resultados disso é que o Brasil tem apenas cerca de 7% do seu Produto Interno Bruto (PIB) movimentado por cooperativas, enquanto a média mundial é de 10%. Considerando países socialmente mais avançados como Nova Zelândia, Noruega, Finlândia, Dinamarca, França e Islândia, esse número varia entre 25% e 50%.

O Paraná é o estado mais cooperativo do Brasil, tendo cerca de 20% do seu PIB movimentado por cooperativas. Assim como todo o Brasil, o estado se destaca essencialmente na área agrícola. Vale ressaltar que o Paraná abriga a maior cooperativa agrícola do país – Coamo Agroindustrial Cooperativa, localizada em Campo Mourão. Só o estado contabiliza cerca de 240 cooperativas, sendo que em todo o país existem cerca de 6.500.

Pesquisa

O projeto de pesquisa envolve alunos de graduação e do Mestrado em Gestão e Sustentabilidade, ambos do Departamento de Administração. A pesquisa está na fase de levantamento do referencial teórico e de resgate histórico do cooperativismo no Brasil e no mundo. Já a partir do ano que vem, a ideia é apontar indicadores e analisá-los ao longo da trajetória histórica e geográfica. Segundo o professor Luis Miguel, o tema é amplo e pode ser desmembrado em diferentes publicações, como artigos científicos, jornais, revistas e a elaboração de um livro.

O professor ressalta que mesmo após o término do projeto, o intuito é acompanhar de perto o desenvolvimento do cooperativismo ao longo do tempo. Uma grande preocupação, segundo ele, é fazer que os resultados do projeto sejam levados para além do ambiente acadêmico, como por exemplo através da participação em eventos promovidos pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB) e Organização das Cooperativas do Estado do Paraná (Ocepar), além de fomentar a educação para a cooperação no ensino fundamental.

Fonte: Universidade Estadual de Londrina