Pesquisa da Ufes busca quantificar prejuízos causados por incêndios florestais

0
27
Bombeiros e trabalhadores combatem o fogo na Reserva Biológica de Sooterama, no Norte do Espírito Santo
Incêndio em Sooterama ocorreu em março de 2016. Foto: Valdir Santos/ICMBio

– Por Laís Santana –

Qual o tamanho do prejuízo causado pelos incêndios florestais? Quais as suas consequências? Como evitá-los? Uma pesquisa realizada na Ufes busca contabilizar os prejuízos econômicos decorrentes dos combates às queimadas.

“O setor ambiental não sabe de forma efetiva e conjunta os prejuízos econômicos causados por um incêndio”, afirma o professor Nilton Cesar Fiedler, de Engenharia Florestal da Ufes, que coordena pesquisas nessa área.

Com o uso de programação matemática e inteligência artificial, o grupo de pesquisa da Ufes desenvolve, em conjunto com a Universidade de Córdoba (Espanha) e a empresa de papel Suzano, um sistema de mapeamento dos locais com maior risco de incêndio florestal. “A nossa pesquisa tem o objetivo de reduzir o tempo de resposta no combate do fogo. Isso facilita o deslocamento do pessoal e dos equipamentos de combate”, esclarece Fiedler, que atua no Programa de Pós-Graduação em Ciências Florestais da Universidade, sediado no município de Jerônimo Monteiro, no sul do Espírito Santo.

O sistema reúne informações geográficas sobre a vegetação local, o histórico de ocorrências de queimadas, as condições meteorológicas e o uso e a ocupação do solo. As características do fogo e as perspectivas de propagação são calculadas em função das características do local de ocorrência.

Outra pesquisa orientada pelo professor estima o valor gasto em cada combate de incêndio e cria, pela primeira vez, uma metodologia para este cálculo. O estudo, desenvolvido na tese de doutorado da professora Elaine Cristina Gomes da Silva, do Departamento de Zootecnia de Alegre, se baseou em um grande incêndio na Reserva Biológica de Sooretama e em outro no Parque Estadual de Itaúnas, ambos localizados no norte do Espírito Santo. Apenas nessas ocorrências, o gasto público foi superior a R$ 1 milhão. Segundo Fiedler, os valores variam em função do tamanho do incêndio; dos danos ocorridos; das máquinas, aeronaves e equipamentos utilizados; e do pessoal de combate.

O professor destaca ainda a perda “incalculável” da biodiversidade nas unidades de conservação. “Não existe ganho nas ocorrências de incêndios em áreas protegidas. Somente prejuízos. Nos nossos biomas, há uma riqueza de vegetação e fauna fantástica e muitas espécies não foram sequer descobertas. Além disso, a poluição causada pelos incêndios agrava o efeito estufa e adoece a população”, completa. Em vários municípios amazônicos foi percebido um aumento de mais de 20% em todas internações hospitalares devido à inalação de fumaça dos incêndios florestais.

Trabalhador combate o fogo no Parque Estadual de Itaúnas, também no Norte do estado. Foto: Iema
Trabalhador combate o fogo no Parque Estadual de Itaúnas, também no Norte do estado. Foto: Iema

O fator humano

Os incêndios florestais não provocados por humanos ocorrem majoritariamente por ocorrência de raios. Por acontecerem próximos a períodos de chuva, esses incêndios não são tão prejudiciais para a região. “A floresta, quando está intacta, tem baixo risco de ocorrência de incêndios florestais”, explica o professor. “O grande problema é a intervenção humana, desmatando e retirando árvores de interesse comercial sem o correto manejo florestal, deixando áreas com restos de vegetação e propiciando condições de propagação do fogo.”

O engenheiro florestal afirma que a maioria dos incêndios nas unidades de conservação do Brasil tem origem humana, seja por negligência, por acidente ou por interesse. Na maioria das vezes, o fogo é iniciado para limpar a região após os desmatamentos e, assim, preparar o solo para plantio de forma mais barata. O problema se agrava quando as queimadas invadem regiões de Floresta Amazônica ou de Mata Atlântica, porque as espécies têm baixa resistência ao fogo. Já nas áreas de cerrado, por exemplo, a fauna e flora locais têm mais possibilidade de sobreviver aos danos, porque são mais adaptadas às consequências do fogo.

No Brasil, os incêndios em áreas protegidas federais são combatidos pelos brigadistas das Unidades de Conservação, pelos bombeiros, pelo Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Federais (Prevfogo) do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Em áreas estaduais, o combate fica a cargo de programas específicos das secretarias de meio ambiente. Além disso, várias unidades de conservação têm seus próprios programas de prevenção e combate, com o apoio de órgãos como o Corpo de Bombeiros, companhias de distribuição de água, secretarias de transporte, voluntários e organizações não governamentais (ONGs).

Conscientização

De 2002 a 2004, o professor Nilton Cesar Fiedler coordenou um projeto de pesquisa sobre estratégias para reduzir queimadas e desmatamentos nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil. Essas pesquisas foram base para o Programa Nacional de Florestas (PNF), articulado pelo Ministério do Meio Ambiente no início dos anos 2000. Nesse projeto, as estratégias estipuladas foram aplicadas em algumas regiões e trouxeram resultados satisfatórios: “Por exemplo, no norte do Mato Grosso, foram instaurados os Pactos de Redução do Fogo, com trabalhos educativos e de conscientização das comunidades e de produtores rurais. Houve, em algumas regiões, uma redução de 80% das ocorrências de incêndios”, indica.

Durante as pesquisas, o professor percebeu um grande obstáculo no déficit na conscientização ambiental da população. “Ainda existe essa visão de que as florestas são empecilhos para o desenvolvimento econômico do país, mas ali existem materiais que são muito mais valorizados que os produtos agrícolas, como os fármacos, frutos, castanhas, látex e artesanatos”, afirma.

O pesquisador Nilton Fiedler salienta que a melhor forma de o brasileiro evitar possíveis incêndios nas florestas é não usar o fogo sobre áreas verdes. “O fogo sempre foi importantíssimo para o desenvolvimento da humanidade. No entanto, nós o utilizamos de maneira errada quando colocamos fogo na vegetação, sem pensar em onde ele vai parar e que catástrofe ele pode causar”.

Fonte: Universidade Federal do Espírito Santo