UFU desenvolve moto elétrica para participar de evento na Espanha

Equipe de estudantes é a única a representar o Brasil no MotoStudent

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Imagine que você esteja parado em seu carro ou moto, provavelmente movidos por motor a combustão, aguardando o sinal verde do semáforo, em uma das vias mais movimentadas de Uberlândia, para continuar seu trajeto rotineiro para casa ou para o trabalho. Enquanto espera para seguir o tráfego normal, alguns jovens de 19 a 25 anos passam entre as fileiras de carros que, assim como o seu, esperam o sinal verde. O propósito dos jovens? Vender uma ideia, um projeto de pesquisa, para receber uma contribuição financeira e dar em troca uma garrafa de água de 500 mililitros. Você contribuiria? Ficaria interessado em ouvi-los naqueles poucos segundos?

Essa é a realidade dos estudantes do Laboratório de Mobilidade Automobilística e Urbana (Lamau), da Faculdade de Engenharia Elétrica (Feelt) da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). A iniciativa de vender água em semáforos partiu da necessidade de levantar fundos para a inscrição no evento Moto Student, que acontece em Aragão, na Espanha, e é organizado pelo mesmo grupo que realiza o MotoGP, o Campeonato Mundial de Motovelocidade.

O Moto Student é uma competição internacional entre times de estudantes universitários de todo o mundo. O objetivo do campeonato, para esses estudantes, é aplicar todos os conhecimentos adquiridos durante os anos de estudo na universidade em um projeto industrial real, desenhando, desenvolvendo e construindo um protótipo de motocicleta de corrida que será avaliada e testada na pista de corrida do circuito de Aragão. O evento tem data para acontecer: em setembro de 2020.

A categoria que os estudantes do Lamau participarão é a da concepção de uma motocicleta com sistema de propulsão 100% elétrico. Um desafio para os alunos provarem a sua criatividade e inovação, testando as suas habilidades em engenharia diante de outras universidades do mundo que estarão juntas no mesmo espaço.

Um sistema elétrico é um dispositivo que funciona com corrente alternada ou contínua e que converte a energia elétrica em movimento ou em energia mecânica. O motor a combustão do seu carro – que provavelmente esperava no sinaleiro lá no início deste texto! – funciona através de processos que envolvem a entrada de combustível, ar, explosão, liberação de gases e energia para o motor.

Atualmente, o laboratório conta com a participação de 33 estudantes dos cursos de Engenharia Elétrica, Engenharia Mecânica e Engenharia de Controle e Automação, e abre espaço para que estudantes de outros cursos de Engenharia possam participar dos trabalhos que são realizados.

O projeto da motocicleta elétrica começou a ser desenvolvido no início deste ano, quando os alunos precisaram arrecadar uma quantia em dinheiro para fazer o pagamento da inscrição do evento, cujo valor foi de R$ 15 mil. “Alguns de nós estavam correndo atrás de arrecadação de dinheiro através de rifas e águas. Nós passamos basicamente as férias e parte do semestre inteiro correndo atrás de tudo isso”, conta Ruy de Sousa Alves, aluno do curso de Engenharia Mecânica, responsável por coordenar os trabalhos do laboratório.

Depois de terem submetido a inscrição, para iniciarem os trabalhos, os pesquisadores estruturaram o laboratório com alguns equipamentos, como computadores, máquinas de comando numérico computadorizado, mesas, bancadas, ferramentas de manutenção, óleo para torno mecânico, equipamentos de proteção individual, trancas eletrônicas e câmeras de segurança. A equipe da UFU é a única representante brasileira da categoria elétrica no evento. Na categoria, aproximadamente 73 outras equipes de universidades dos Estados Unidos, Espanha, França, Índia e Itália e de outros países do mundo também participarão.

O grupo de pesquisa conta hoje com 33 participantes, sendo que desses, cerca de 10 levarão o protótipo da motocicleta à Espanha. (Foto: Alexandre Costa)

Os trabalhos do grupo de pesquisa são orientados pelo professor Daniel Carvalho, do curso de Engenharia de Controle e Automação, e acompanhados pelo tutor Carlos Bisshochi, vice-diretor do curso de Engenharia Elétrica. Para Alves, trata-se de um projeto que representa algo grande e ousado para a universidade. “Ir até lá e levar o nome da UFU, em si, realmente é de uma responsabilidade muito grande, tanto é que nós já vendemos cerca de 10 mil águas, não só para pagar essa inscrição, mas para fazer as manutenções no laboratório da UFU e começar a juntar dinheiro, porque o projeto custará cerca de 80 mil reais”, relata.

A participação no evento foi iniciativa de Alves. “Tive a ideia de deixar um legado para a universidade, então, achei essa competição, esse evento que o Moto Student propõe”, explica. “Primeiro propus para a minha Faculdade [de Engenharia Mecânica], só que eles estavam sobrecarregados de atividades. Aí eu trouxe a proposta para a [Engenharia] Elétrica e foi através dela que conseguimos todo o suporte. Depois que a Elétrica topou, voltei a proposta para a Mecânica, avisando que eu tinha conseguido e, naturalmente, eles apoiaram o projeto”, detalha.

Assim, foi criado o Laboratório de Mobilidade Automobilística Urbana. “Eles [a Engenharia Elétrica] cederam o espaço e a gente começou a trabalhar a partir do dia 28 de agosto do ano passado”, afirma Alves. Atualmente, o projeto encontra-se em fase inicial de desenvolvimento. A organização do evento exige que as equipes enviem relatórios periódicos do andamento dos protótipos. Em agosto, os estudantes precisam enviar a descrição do conceito da moto, do que está sendo feito na fase inicial da estrutura e do que vai acontecer no restante do ano.

Até julho de 2020, a moto elétrica precisa estar pronta para que embarque até a Espanha por transporte marítimo. A UFU tem contribuído com apoio e cessão de espaços físicos para realização das pesquisas. Para Alves, a maior dificuldade que o grupo tem enfrentado é a inexperiência. “Criamos um laboratório para alunos, temos coordenadores e tutores que nos auxiliam e orientam, mas o próprio evento pede que os professores não interfiram, que os alunos enfrentem essas dificuldades, e essa inexperiência faz com que, às vezes, o tempo se torne um agravante”, pontua.

A preocupação com o tempo de desenvolvimento do projeto aumenta com a demora para a chegada de peças que precisam ser importadas por não serem produzidas no país. O projeto do chassi, por exemplo, será feito no Brasil, algo que facilita, por um lado. Mas por outro, o motor, as baterias e alguns componentes eletrônicos são importados. De acordo com Alves, esses produtos passam por testes no Exército antes de chegar às instituições, e o custo deles tem um preço reduzido, por tratar-se de uma compra feita para a universidade.

Apesar dos desafios, os estudantes enxergam com otimismo a participação no Moto Student e mostram-se confiantes sobre a ida à Espanha no ano que vem. “Tenho certeza que nós vamos. Estamos fazendo de tudo para conseguir ir com a moto. Até porque temos alguns planos Bs. Se uma bateria não chegar, o meu plano B é conseguir essa bateria lá na Espanha”, ressalta Alves. Eu tenho o projeto aqui. Nós vamos antes, não vamos para o dia da competição. E, chegando lá, a gente faz a montagem da bateria, do equipamento em si”, completa.

Considerando o custo de elaboração do projeto, as passagens para dez integrantes (de uma equipe de 33 pessoas) e outras despesas, a previsão com os gastos totais se aproxima dos R$ 150 mil. Até o momento, os pesquisadores do laboratório têm, em caixa, R$ 18 mil.

Para os pesquisadores do Lamau, a participação no Moto Student tem grande relevância. “É a realização de um intercâmbio de conhecimentos com universidades e alunos de outros países, representar o país e a universidade num evento de peso e receber a validação internacional de uma tecnologia produzida no Brasil e que pode ter aplicação direta em outros fins, como, por exemplo, a melhoria de projetos de acessibilidade”, analisa Alves. “Para a universidade, o trabalho deixa um legado no reconhecimento de um projeto que pode trazer resultados para o futuro, com o crescimento da utilização de veículos elétricos”, finaliza.

Fonte: Universidade Federal de Uberlândia