UFJF analisa papel das mulheres no Programa Bolsa Família

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Da esquerda para a direita: professora Candida Maria Bezerra Dantas (no vídeo), mestranda Camila Borges Machado, professora Maria Lúcia Duriguetto e professor Fernando Santana de Paiva (foto: arquivo pessoal)

Diante da necessidade de ampliar o debate e a avaliação crítica sobre os efeitos da centralidade da figura da mulher na política de transferência de renda, a acadêmica Camila Borges Machado desenvolveu sua dissertação no Programa de Pós-graduação em Psicologia (PPGPSI), da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Ela  ressalta que o estudo teve como objetivo compreender os impactos do Programa Bolsa Família (PBF) na vida das mulheres bolsistas e titulares no âmbito familiar.

No estudo, Camila trabalha com uma face feminina seletivamente negra (preta e parda). Com o título “O que cabe às mulheres no Programa Bolsa Família? Uma história de muitas Marias, Mahins, Marielles e Malês” a dissertação enfatiza uma abordagem que desconstrói a perspectiva hegemônica. “Nomes fictícios e nem tão fictícios assim, são mulheres que representam a luta de uma história que a história não conta”, destaca a pesquisadora.

De acordo com Camila, o Programa Bolsa Família é a principal política de transferência de renda adotada no Brasil e é tratada como uma estratégia para minimizar os efeitos da pobreza. “De modo geral, há um certo entendimento da política de que, para romper com o ciclo intergeracional da pobreza, além do acompanhamento de saúde e frequência escolar, o valor da bolsa deve ser administrado pelas mulheres/mães e investido em seus filhos e filhas.” Sendo assim, a acadêmica avalia que “essa responsabilização, além de fortalecer um ideário do cuidado em torno da figura materna, estabelece uma série de desigualdades sociais vivenciadas cotidianamente pelas mulheres da classe trabalhadora, refletindo, inclusive, na chamada feminização da pobreza”, explica.

No trabalho de construção da pesquisa, Camila buscou “analisar o papel desempenhado pelas mulheres bolsistas no arranjo familiar; compreender como a titularidade interfere no cotidiano de suas relações familiares; refletir em que medida a titularidade do PBF pode reforçar ou tensionar os papéis tradicionais de gênero, bem como analisar de que forma a condição de titular pode interferir nas estratégias de enfrentamento em relação à situação de pobreza.”

O estudo prático, segundo a acadêmica, foi iniciado em setembro de 2018 e encerrado em abril de 2019. “Foram meses de contato e imersão em um grupo de mulheres que afetivamente toparam caminhar comigo, sob a supervisão do meu orientador e apoio da equipe técnica do Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) São Benedito do município de Juiz de Fora.”

A pesquisadora pontua que as mulheres compreendem a titularidade feminina como um importante avanço político. Além disso, avalia que a forte realidade em que vivem também revela que a titularidade produz efeitos diretos sobre suas vidas, bem como impacta nas tomadas de decisão no âmbito familiar. “Isso nos leva a refletir sobre a verdadeira ‘ideologia de gênero’ que tanto tem sido empregada nos dias atuais: a ideologia patriarcal. Por fim, compreendo que a política deve caminhar em direção à universalização dos direitos sociais, não o contrário, visto que tal focalização legitima uma série de violências, opressões, controle e fiscalização, o que nos exige repensar sobre nossas práticas como profissionais (no âmbito da política) e pesquisadores, de modo a colaborarmos com a organização coletiva.”

O professor orientador da dissertação, Fernando Santana de Paiva, destaca que a pesquisa contribui para a compreensão da importância das políticas públicas responsáveis pela busca de condições mais dignas de existência na vida de diferentes pessoas na sociedade. “O estudo viabiliza a importância de romper com uma visão calcada nos moldes da mulher-mãe e cuidadora, haja vista, que da maneira como a política hoje se encontra estruturada, esta visão naturalizada sobre as mulheres pode não favorecer um processo de organização coletiva e transformação real das suas condições de vida, sejam elas materiais, mas também simbólicas e subjetivas.”

Fonte: Universidade Federal de Juiz de Fora