Pesquisa da Ufal aborda o processo de segregação social em Maceió

Trabalho apontou como os discursos de medo e de insegurança influenciam nas ações de políticas públicas

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Com o objetivo de abordar como as cidades podem produzir o processo de segregação social em nome da segurança, o psicólogo, Carlysson Alexandre defendeu em sua dissertação de mestrado, a pesquisa Discursos de medo e insegurança como produtores de exclusão e segregação no espaço urbano. O trabalho foi orientado pela professora do Programa de Pós-graduação em Psicologia, Simone Hüning.

Para trabalhar o tema, a pesquisa fez um recorte a partir de uma localidade específica de Maceió conhecida como “Rua Fechada”, localizada na orla da Ponta Verde. A metodologia da montagem do trabalho partiu da divisão em dois tipos de materiais: O primeiro, chamado de “fragmentos da cidade” tratou da reunião de notícias publicadas em jornais online, fotografias, postagens em redes sociais e textos em blogs que fazem referência ao espaço da Rua Fechada e, às ações policiais que ocorreram nesse local.

O segundo material concentrou na inspiração em alguns conceitos propostos pelo movimento Internacional Situacionista com a realização de derivas no trecho específico da Rua Fechada, que seriam caminhadas pela cidade em uma tentativa de fazer emergir questões relativas à vida cotidiana. De acordo com o pesquisador Carlysson, caminhar pela cidade seria como uma técnica de experimentá-la e de fazer parte dela. Foram produzidos diários de campo, originados a partir dessas derivas, sobre o que acontece na região e também alguns registros fotográficos durante as caminhadas.

A Segregação e a relevância social da pesquisa

A segregação social é um fenômeno que ocorre de forma estrutural em várias metrópoles, dividindo a sociedade de acordo com suas condições sociais e aspectos culturais. Dessa forma, criam-se barreiras que tentam isolar e impedir que a parte mais pobre desta sociedade integre os espaços que são financeiramente mais valorizados na cidade.

Segundo Carlysson, a pesquisa sinaliza algumas questões que não são exclusivas de Maceió, mas também de diversas outras cidades brasileiras, afetando o cotidiano de milhões de pessoas. “Identificamos e problematizamos um processo de fabricação do inimigo nos grandes centros urbanos. As políticas de segurança e os discursos midiáticos vêm construindo certos indivíduos como perigosos para uma parcela da população. São indivíduos dos quais devemos nos proteger, e, portanto, demandamos e legitimamos várias ações violentas de segregação e exclusão em nome dessa sensação de segurança”, explicou.

A pesquisa buscou, ainda, concentrar suas constatações nas consequências dessa segregação e aqueles que seriam os mais atingidos. “Em Maceió, essa figura tem características bastante definidas, em geral são jovens, negros e que moram em bairros periféricos da cidade. Esses corpos jovens, negros e periféricos são alvos de discursos discriminatórios oriundos de diversos setores da sociedade, e com isso, são rotineiramente marcados como indivíduos perigosos. A naturalização desses corpos como perigosos vem produzindo uma série de efeitos nas cidades, pois as práticas de exceção promovidas em nome da segurança são cada vez mais frequentes nos centros urbanos, como por exemplo, as ações policiais truculentas que se tornaram frequentes na Rua Fechada”, revela Carlysson.

Para o pesquisador, a relevância social de sua tese seria dar visibilidade a maneira como as cidades estão sendo estruturadas a partir da política de segregação em nome da segurança. “Procuramos apontar como o sentimento do medo que uma parte da população sente é fruto de um processo histórico e social e, portanto, podemos e devemos analisá-lo dessa maneira. Entender que o medo é fabricado ao longo da história é também entender que ele pode ser ressignificado de outra maneira, o medo precisa ser historicizado, politizado e, consequentemente, desconstruído”, conclui.

 

Ação policial da “rua fechada”. Foto: Ítalo Dantas de Almeida

Fonte: Universidade Federal de Alagoas