Estudo da Unesp veste aves com mochilas de GPS para entender processo de migração

Tecnologia e ciência cidadã ajudam a avaliar impacto da urbanização na rota das aves

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 05/06/2019 por: Marcos Jorge

Uma pesquisa da Unesp em Rio Claro está equipando aves com “mochilas de GPS” para entender um pouco melhor o seu processo de migração e qual o impacto que a urbanização exerce sobre ele. Além do componente tecnológico, a pesquisa também conta com a colaboração de observadores de aves que ajudam no monitoramento das espécies, aplicando o conceito de ciência cidadã à pesquisa.

O projeto tem foco em áreas verdes e parques das cidades e em algumas das espécies de aves que ocupam estas áreas, como a peitica (Empidonomus varius), o bem-te-vi-rajado (Myiodynastes maculatus), o suiriri (Tyrannus melancholicus) e a tesourinha (Tyrannus savana). As espécies foram escolhidas por sua larga distribuição geográfica, por realizarem migração austral (dentro do continente) e por serem conhecidas pelo público em geral, o que facilita a participação cidadã na pesquisa.

“Qualquer pessoa que esteja andando de setembro a fevereiro em parques como o Ibirapuera, parque do Carmo ou o campus da Unesp de Rio Claro pode encontrar essas aves com menos de 50 gramas. Todos os anos elas viajam milhares de quilômetros e voltam para se reproduzir em nossos parques”, explica a pesquisadora Karlla Barbosa, que recebe uma bolsa da CAPES para desenvolver seu projeto de doutorado.

02avesgps.jpgKarlla Barbosa, doutoranda do Laboratório de Ecologia Espacial e Conservação (LEEC) da Unesp de Rio Claro, posa com um dos bem-te-vis-rajados que recebeu a mochila de GPS (Crédito: Divulgação) 

Fiel ao lar
Em um primeiro momento da pesquisa, ainda em 2017, ela e seu orientador, Alex Jahn, pesquisador vinculado à Unesp e à Indiana University, dos Estados Unidos, colocaram anilhas coloridas nas patas de aproximadamente 50 aves. O procedimento constatou que, após a migração, 50% delas voltaram exatamente para o mesmo ninho de onde partiram, um comportamento conhecido como filopatria.

O monitoramento do retorno das aves foi possível com a colaboração de cidadãos que entraram em contato com a pesquisadora notificando ter encontrado aves anilhadas em áreas verdes das cidades de São Paulo, Guarulhos ou Rio Claro. “A ajuda do cidadão comum no reconhecimento das espécies é uma forma de conseguirmos dados, mas, mais importante ainda, é também uma ferramenta que ajuda no engajamento das pessoas com a conservação das espécies”, celebra a pesquisadora, que criou o site Aves da Cidade, onde informa sobre o andamento do projeto de pesquisa.

Uma das intenções ao se colocar as anilhas coloridas nas aves era pra saber se elas voltariam ao mesmo local. Uma vez comprovado essa fidelidade ao local de partida, a pesquisa quer saber agora para onde elas vão exatamente. Dados de ciência cidadã obtidos em plataformas de observadores de aves, como o eBird ou o Wikiaves, têm mostrado que eles estão no sul e sudeste do Brasil entre os meses de agosto e março, mesmo período em que as populações do norte e nordeste desaparecem ou diminuem.

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Três etapas da pesquisa: na primeira foto (à esquerda), indivíduo anilhado na pata esquerda retorna ao ninho após a invernada; no centro, imagem da ave já “vestindo” a mochila de GPS; na última foto (á direita), o detalhe do GPS que tem a medida de uma moeda de 5 centavos (Crédito: Divulgação)

“Isso corrobora com o que já foi descrito na literatura científica, mas ainda persistem algumas perguntas como, para onde vão os indivíduos dos parques urbanos de São Paulo, se as aves ficam o período de invernada inteiro no mesmo lugar ou se fazem muitas paradas pelo caminho”, aponta a pesquisadora de Rio Claro. Karlla explica que, ao migrarem, as aves passam por vários locais e interagem em vários ambientes. Portanto, conhecer os locais por onde elas passam pode nos ajudar a entender a importância desses locais para as espécies.

“Os parques urbanos são um bom exemplo disso. Pense em uma árvore que o bem-te-vi-rajado usou de ninho no ano passado e agora ele voltou para o mesmo local. Se a árvore e seu ninho não estiverem mais lá é como se você viajasse de férias e quando voltasse não encontrasse mais sua casa, seu lar. Ele tem que se reorganizar e buscar outra árvore ou mesmo outro parque, e nisso ele pode perder o tempo de se reproduzir naquele ano”, afirma.


Vídeo mostra a colocação do GPS no bem-te-vi-rajado

GPS de 1 grama
A mochila de GPS que os bem-te-vis-rajados vestem são presas ao corpo do animal por um fio de silicone. Esse tipo de tecnologia capta informações de satélite para a localização, porém não manda a informação em tempo real, o dispositivo apenas armazena a informação no aparelho. Aparelhos que enviam a geolocalização em tempo real pesam mais de 5 gramas, ultrapassando o limite sugerido de 3% do peso do animal. “O GPS que usamos pesa 1 grama e tem o tamanho de uma moeda de 5 centavos”, explica.

Em estudos anteriores que também utilizaram a tecnologia das mochilas, o orientador Alex Jahn encontrou a rota migratória das tesourinhas. O trabalho constatou que alguns indivíduos que saem do sudeste do Brasil chegam em grandes grupos para passar o período não reprodutivo ao norte do continente sul americano. Essa pequena ave migratória que ocupa os parques urbanos do sudeste para se reproduzir, também estão presentes em Buenos Aires, na Argentina.

Algumas dessas tesourinhas receberam a mochila tecnológica e os dados obtidos revelaram que essas aves migraram para a região Noroeste da América do Sul, entre o Peru, Colômbia e Brasil, e depois foram para a Venezuela passar o resto do inverno. Todo esse deslocamento demorou de 7 a 12 semanas, apenas, e com uma velocidade média de 45 a 66 km por dia. No total, as tesourinhas viajaram mais de 4 mil quilômetros em suas migrações.

Assim como feito com as tesourinhas, o estudo com as mochilas de GPS dos bem-te-vis-rajados espera descobrir, a partir de setembro, qual a trajetória e o destino da jornada desses seres viajantes e quantos dias eles demoram a chegar ao seu ponto final e retornarem para casa.

Fonte: Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”