Pesquisa da UFSCar analisa vida escolar de crianças haitianas

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Crianças interagem em escola localizada em Sinop, no Mato Grosso (Foto: Ivone Jesus Alexandre)Crianças interagem em escola localizada em Sinop, no Mato Grosso (Foto: Ivone Jesus Alexandre)

Entender como ocorre a inserção de crianças haitianas em escolas públicas de Sinop, município do Mato Grosso (MT). Este foi o principal objetivo da pesquisa intitulada “A presença das crianças migrantes haitianas nas escolas: o que elas visibilizam da escola?”, de autoria de Ivone Jesus Alexandre, sob orientação de Anete Abramowicz, docente do Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) da UFSCar e Professora Titular da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP). O trabalho foi a primeira tese defendida no escopo do Doutorado Interinstitucional (Dinter) em Sociologia, promovido pelo PPGS em parceria com a Universidade do Estado do Mato Grosso (Unemat).

O estudo está vinculado à linha de pesquisa “Sociologia da Infância” e, além de analisar como a criança migrante se insere nas escolas, identificou como a presença das crianças migrantes negras visibilizam a racialização nessas instituições. Para isso, a pesquisadora realizou, entre os anos de 2016 e 2018, observações e entrevistas individuais e em grupo – com crianças haitianas, pais, professores, profissionais de desenvolvimento infantil e bolsistas de quatro escolas públicas em Sinop, duas de Educação Infantil e duas de Ensino Fundamental. “O recorte temporal abrangeu as crianças migrantes que vieram com seus pais no período de 2016 e 2017 para o Brasil e se instalaram em Sinop. A maioria dos alunos que frequentava as escolas eram pobres e de origem negra. Os sujeitos da pesquisa foram crianças haitianas, de 3 a 12 anos, em diferentes fases do ensino”, descreve Ivone Alexandre.

De acordo com ela, as relações de raça aumentam conforme a idade avança. “A partir do momento em que as crianças aprendem noções de raça e se deparam com modelos e discursos que valorizam a branquitude na escola, as atitudes racistas se intensificam. Isso se expressa em detalhes, como nas formas de falar e na recusa dos colegas em se aproximar das crianças negras”, afirma.

Em todas as escolas analisadas, as crianças migrantes haitianas vivenciaram relações racializadas pelos colegas e pelos professores. Segundo a pesquisadora, o resultado da tese aponta a existência de determinada hierarquia entre crianças não-haitianas e haitianas nos colégios. “As hierarquias são estabelecidas em função do racismo devido à cor. Mesmo que as crianças haitianas falem, muitas vezes, Criolo, Português e Francês, e tenham facilidade para aprender, os professores tendem a conceder conceitos e notas melhores para alunos brancos. Além disso, quando os educadores se surpreendiam com as qualidades das crianças haitianas, mencionavam que eram limpas, inteligentes e educadas, remetendo à ideia de que os negros brasileiros não o são”, revela. Para ela, o impacto que a presença das crianças migrantes haitianas causa nas escolas ocorre por serem percebidas pelos professores e pelos colegas como diferentes, e essas diferenças estão explícitas em seus corpos. “Essas diferenças levam ao estabelecimento de uma hierarquia entre as próprias crianças, sendo as haitianas subalternas em relação às demais”, afirma.

Ivone Alexandre lembra que existe no Brasil uma legislação – Lei nº 10.639/03 – que preconiza que as escolas devem incorporar uma educação antirracista nos currículos, mas as instituições pesquisadas por ela não trabalham esse conceito. “Não há projetos sobre o tema. Os professores não conseguem ‘tirar a cor das crianças’; o racismo está tão enraizado na sociedade, que mesmo com as políticas públicas que vieram para acabar com ele, encontramos resistência nos próprios professores, que afirmam que todos na escola são tratados de forma igual. O racismo adquire novas roupagens na contemporaneidade, novos contornos; é perverso e age excluindo as pessoas de origem negra”, enfatiza.

Para a pesquisadora, a mudança dessa realidade deve começar com a construção de novas práticas pedagógicas. “A escola precisa trabalhar em consonância com a legislação para formar cidadãos que respeitem as diferenças. Nesse sentido, é necessário que os professores e a equipe técnica da escola tenham formação continuada para que possam receber os migrantes de maneira apropriada e construir práticas pedagógicas que valorizem a diversidade humana”, conclui.

A tese foi defendida em abril de 2019 e a banca examinadora contou com a participação dos docentes Maristela Abadia Guimarães, do Instituto Federal de Mato Grosso (IFMT); Paulo Alberto dos Santos Vieira, da Unemat; Ana Cristina Juvenal Cruz e Tatiane Cosentino Rodrigues, ambas do Departamento de Teorias e Práticas Pedagógicas (DTTP) da UFSCar.

Doutorado Interinstitucional (Dinter): novas experiências e enriquecimento na pesquisa
O Doutorado Interinstitucional (Dinter) é um programa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal em Nível Superior (Capes), que tem por objetivos viabilizar a formação, em nível de pós-graduação stricto sensu, de professores das instituições de Ensino Superior; formar doutores do quadro permanente de docentes de instituições distantes dos grandes centros de ensino e pesquisa, de modo a diminuir as assimetrias hoje existentes; fomentar a produção acadêmica e fortalecer, nas instituições atendidas, linhas de pesquisas que respondam às demandas relacionadas ao desenvolvimento local e regional.

Para Ivone Alexandre, a formação stricto sensu é fundamental ao desenvolvimento científico e tecnológico do país, para a existência das universidades e de um ensino de qualidade. “É através dessa formação que ampliamos nossos conhecimentos e que aprendemos a propor projetos – de ensino, pesquisa e extensão – que visem a qualidade da Educação e o avanço da sociedade. Nesse contexto, o Dinter permitiu que tivéssemos diferentes experiências – o cumprimento dos créditos, o estágio em São Carlos e a vivência acadêmica, que foi riquíssima na teoria e nas relações interpessoais, pois tivemos a oportunidade de participar de cursos, palestras, oficinas e seminários, o que nos enriqueceu enquanto professores, pesquisadores e seres humanos”, finaliza. Mais informações sobre o Dinter podem ser obtidas em capes.gov.br/bolsas/bolsas-no-pais/dinter.