Pesquisadora da UEL propõe soluções para segurança das mulheres na universidade

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José de Arimathéia

Planta baixa do Campus: os círculos indicam locais onde foi apontada sensação de insegurança

A estudante Gabriela de Andrade Sabino participou de uma Semana de Geografia, na qual fez um exercício, proposto por um palestrante, em que abordava o problema da insegurança e da violência contra a mulher. O tema acabou se transformando em seu trabalho de conclusão de curso (TCC), defendido este ano, intitulado “Violência contra a mulher: vozes femininas”, e orientado pela professora Margarida de Cassia Campos.

O estudo é dividido em três grandes partes. A primeira expõe a relação entre o movimento feminista e os estudos geográficos. A segunda aborda a violência contra a mulher no Brasil e no mundo, também do ponto de vista dos estudos geográficos. Ali o trabalho informa, por exemplo, que – segundo a Organizações das Nações Unidas (dados de 2018) – Índia, Afeganistão e Síria encabeçam a lista dos 10 países mais perigosos para ser mulher. Os Estados Unidos aparecem em décimo. Já os países com mais mais casos de feminicídio são El Salvador, Colômbia e Guatemala, mas o Brasil aparece em quinto lugar. E no Brasil, os estados mais perigosos para ser mulher são Roraima, Goiás e Mato Grosso. A terceira parte consiste numa pesquisa da percepção da violência no Campus da UEL.

Para Gabriela, a Geografia tem avançado, mas este tema não é trabalhado em nenhum nível (médio, graduação ou pós), por isso são encontrados apenas artigos e outros estudos mais pontuais. Quanto à legislação, a estudante entende que a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) é um grande marco no movimento feminista, porque depois dela as mulheres falam mais, denunciam mais. A caracterização dos vários tipos de assédio (não apenas no ambiente de trabalho) foi outro avanço. Mas é insuficiente, segundo Gabriela: “Ainda faltam políticas públicas. As mulheres conquistaram muito, mas muitas ainda são submissas”, diz.

Para conhecer a percepção de insegurança das mulheres na UEL, Gabriela elaborou um questionário de cinco perguntas. Ela colocou o questionário no Google e obteve 173 respostas, entre uma maioria de estudantes e servidoras técnico administrativas. Cerca de dois terços vieram de mulheres entre 20 e 23 anos. As respostas mostraram que 88,4% das mulheres nunca sofreu violência na UEL e, das que informaram já ter sofrido, a maioria foi violência moral e psicológica, mas houve também alguns relatos de racismo. Quanto aos locais que parecem mais inseguros no Campus às entrevistadas, aparecem o Calçadão e os pontos de ônibus, particularmente à noite. Para Gabriela, a iluminação é fator determinante das respostas e, apesar dos números, sinaliza que existe o temor de sofrer alguma violência física.

Professoras Angela Maria Souza de Lima (Ciências Sociais), Margarida de Cassia Campos, Gabriela de Andrade Pereira e professora Vanessa Maria Ludka (Geografia/Universidade do Norte do Paraná/Cornélio Procopio

Diante deste cenário, Gabriela propõe algumas ações. Para ela, câmeras de vigilância ajudam, inibem a ação delituosa, mas não impedem que o assédio, por exemplo, ocorra em outro lugar, não monitorado. Implantar um sistema de segurança pessoal, para a comunidade universitária, é outra sugestão. Mais importante ainda, em sua avaliação, é investir numa política institucional de conscientização. “A Universidade é um ambiente que não está imune à violência, por isso é importante falar mais, abordar mais o assunto”, defende. Porém, o “sonho” de Gabriela é a existência de centros de ajuda multidisciplinar de assistência à mulher. Como ela pretende prosseguir na pesquisa do tema num Mestrado, o sonho pode se tornar uma realidade futura.

DESAFIOS

A orientadora da pesquisa, professora Margarida, conta que o trabalho de orientação foi prazeroso mas também desafiador, tanto do ponto de vista do objeto quanto da metodologia. Um deles foi como abordar as mulheres na Universidade. “Um outro desafio era ‘geografizar’ o trabalho, neste sentido resolvemos discutir que a violência contra a mulher está materializada no espaço geográfico, portanto, essas relações de poder pautado na patriarcalismo são agentes produtores de espaço, por isso devem ser problematizadas pela Ciência Geográfica”, relata a professora. Daí a ideia do mapa: “acredito que esse produto é a maior contribuição da pesquisa da Gabriela para a Universidade, pois a partir dele pode se pensar em políticas internas para garantir a segurança das mulheres na referida Universidade”, finaliza.

Fonte: Universidade Estadual de Londrina